Por
padre John Flynn, L.C.
ROMA,
terça-feira, 16 de março de 2010 (ZENIT.org).-
As imagens sexuais e as mensagens da mídia incentivando um comportamento promíscuo
são uma ameaça para os jovens, afirma um relatório publicado pelo Ministério
do Interior do Reino Unido.
O
Ministério encarregou uma psicóloga independente, Dr. Linda Papadopoulos, de
examinar o impacto de uma cultura invadida pelo sexo, no contexto dos esforços
do governo britânico para reduzir a violência contra as mulheres.
“Mudar
as atitudes irá levar muito tempo, mas isso é essencial, se quisermos deter a
violência contra as mulheres e meninas”, comentou o Ministro do Interior,
Alan Johnson, em comunicado de imprensa, dia 26 de fevereiro.
Tanto
o governo do Partido Trabalhista como a oposição do Partido Conservador estão
preocupados com o impacto da cultura contemporânea sobre os jovens. Antes da
publicação do relatório, o líder dos conservadores, David Cameron, disse que
estava a favor de restringir a publicidade irresponsável dirigida às crianças,
relatou a BBC dia 26 de fevereiro.
No
mesmo relatório - chamado “Sexualization of Young People: Review” (Sexualização
dos jovens: Revisão) - Papadopoulos explicava que sua pesquisa formava parte de
uma consulta que busca aumentar a consciência sobre o problema da violência
contra as mulheres. Investigava em particular a questão para saber se há uma
ligação entre a sexualização da cultura e a violência.
“As
mulheres são veneradas - e recompensadas - por seus atributos físicos, e tanto
as meninas como os meninos são pressionados a imitar esteriótipos dos
respectivos gêneros desde cada vez mais novos”, comentava o relatório.
O
relatório definia a sexualização como “imposição da sexualidade adulta às
crianças e jovens antes que estas sejam capazes de lidar com isso, mental,
emocional e fisicamente”.
Crianças
como adultos, adultos como crianças
O
uso de imagens sexuais na mídia não é precisamente um fenômeno recente. Não
tão distante, nos últimos anos, houve um aumento de seu volume sem
precedentes. Além disso, os meninos são apresentados cada vez mais como se
fossem adultos, enquanto que as meninas são infantilizadas”.
“Isso
mistura as linhas entre maturidade e imaturidade sexual e, na prática, legitima
a noção de que as crianças podem ser tratadas como objetos sexuais”,
afirmava o texto.
Ao
tratar de crianças, uma das preocupações destacadas no relatório é que, em
idade jovem, as capacidades cognitivas necessárias para fazer frente a essas
imagens persuasivas da mídia não se desenvolveram. Junto com essa falta de
capacidade para lidar com tais imagens, a capacidade de difusão de uma cultura
sexualizada como resultado de que as crianças estejam frequentemente expostas
à materiais que não são apropriados para sua idade.
O
relatório observava que um dos temas dominantes nos programas populares é que
as meninas devem se apresentar como sexualmente desejáveis, se quiserem ser
populares entre os meninos. Isso está presente até mesmo para crianças mais
novas, que são incentivadas a se vestir de forma que chamem atenção por seus
atributos sexuais ainda que não possuam.
Muitas
bonecas, por exemplo, são apresentadas de uma forma notoriamente sexualizada.
Objetos como caixas de lápis e outros artigos de escola para crianças ostentam
logotipo da Playboy. Roupa íntima com enchimento é comercializada e vendida
para crianças até os oito anos.
E
assim, a mensagem predominante para os meninos é que devem ser sexualmente
dominantes e tratar o corpo feminino como objeto.
Televisão,
filmes, músicas, junto com os meios impressos, todos apresentam aos jovens essa
mensagem em excesso sexualizadora, observou o realatório.
Transtorno
adolescente
Posto
que as crianças recebem contínuos apelos a se adequar a tais imagens, um dos
resultados que pode ocorrer é o descontentamento com o próprio corpo e uma
baixa auto-estima que, por sua vez, pode provocar depressão e transtornos
alimentares. Junto a esses transtornos como a anorexia, as mulheres jovens
recorrem em grande parte à cirurgia plástica, sob pressão de se transformar
em uma imagem idealizada.
As
crianças e adolescentes também se encontram na mídia com uma grande
quantidade de conteúdo que é explicitamente sexual ou pornográfico,
acrescentou Papadopoulos. A facilidade do acesso à internet, junto com o
material enviado por correio eletrônico e os telefones celulares, resulta na
difícil restrição desses conteúdos aos pequenos.
De
fato, observou o relatório, a indústria do sexo está liberada e se tornou
parte da cultura cotidiana. Os anúncios publicitários viraram rotina na
televisão, com conteúdo de casas noturnas, salas de bate-papo e canais de sexo
na tv.
“O
fato de que as celebridades são habitualmente apresentadas como realizadas e
cobiçadas por sua atração sexual e sua aparência - com pouca referência à
sua inteligência ou às suas capacidades - lança uma poderosa mensagem para as
jovens sobre que é o que vale a pena, e é o que elas devem ter como
objetivo”, disse o relatório.
Os
pesquisadores comprovaram, ao examinar o conteúdo das páginas da web dos
jovens, que muitos adolescentes colocam imagens sexualmente explícitas de si próprios,
e entre seus amigos a linguagem depreciativa e humilhante é comum, afirma o
relatório.
A
sexualização das meninas também está contribuindo com um mercado de imagens
de abusos pedófilos, relatava o estudo. Muitas meninas jovens se apresentam de
forma provocativa e abertamente sexual para a visualização de outros jovens
através de redes sociais ou por celulares.
“Os
próprios jovens estão produzindo e trocando o que não é nada mais que
‘pornografia infantil’ - um fato confirmado pelo crescente número de
adolescentes que estão sendo condenados pela posse desse material”, comentava
o estudo.
Sexualização
e violência
Ao
tratar a questão da relação entre sexualização e violência contra as
mulheres, o relatório citava investigações que mostram que os adultos que
viram imagens de mulheres como objetos sexuais tendem a aceitar mais a violência.
“As
evidências reunidas sugerem um contexto claro entre o consumo de imagens
sexualizadas, uma tendência a ver mulheres como objetos, e a aceitação de
atitudes e comportamentos agressivos como norma”, dizia o relatório.
Papadoupoulos
também se referiu a uma recente pesquisa que mostrava que para muitos jovens a
violência dentro das relações é algo comum. No grupo de idade entre 13 e 17
anos, uma de cada três meninas adolescentes havia sido submetida a atos não-consentidos
durante uma relação, e uma de cada quatro havia sofrido violência física.
Os
investigadores citados no relatório também sugeriram que, para incentivar os
espectadores masculinos a perceber as mulheres como objetos sexuais, a
publicidade promove uma mentalidade em que as mulheres são vistas como
subordinadas e, portanto, esse é o motivo de sofrerem violência sexual.
“A
repetida apresentação dos homens como dominantes e agressivos e das mulheres
como subordinadas está sem dúvida perpetuando a violência contra as
mulheres”, refere o estudo.
Rebelião
O
relatório concluía apelando às pessoas que se deem conta de que a sexualização
é um tema de profunda importância, com graves consequências para os
individuos, famílias e sociedade. Estudos semelhantes nos Estados Unidos e
Austrália chegaram às mesmas conclusões. Ao mesmo tempo, pede que se pesquise
esse fenômeno. O relatório terminava com uma lista de 36 recomendações específicas
sobre como tratar a sexualização.
Além
dos relatórios como o recentemente publicado pelo Ministério do Interior britânico,
a oposição à sexualização da cultura contemporânea cresce entre as pessoas
comuns.
Um
exemplo disso vem da Austrália, com o website Collective Shout, que
fornece uma plataforma interativa para indivíduos e grupos para atuar contra as
empresas e os meios de comunicação que apresentam as mulheres como objetos e a
sexualização das meninas para vender produtos e serviços.
No
final, talvez, a solução desses problemas como a degradação da sexualidade não
consista em estabelecer mais regulamentos do governo. O que é preciso de
verdade é uma mudança básica da opinião pública que seja resultado de uma
revolta contra a exploração das mulheres, uma revolta que surja de pessoas
conhecidas, cansadas de ver como a dignidade humana está sendo degradada.
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