Por Pe. John Flynn, L.C.
ROMA,
terça-feira, 9 de março de 2010 (ZENIT.org).
– Nos últimos anos, a religião chegou a ser considerada um problema ou uma
ameaça para a segurança nacional ou internacional. Uma estratégia para
combater o extremismo religioso foi tentar reduzir a fé ao âmbito meramente
privado. Isso é um grande erro, segundo o estudo publicado a 23 de fevereiro
pela Chicago Council on Global Affairs.
O
estudo, Engaging Religious Communities Abroad: A New Imperative for U.S.
Foreign Policy (“Comprometer-se com as Comunidades Religiosas no
Exterior: Um Novo Imperativo para a Política Externa dos Estados Unidos”),
tem como autores membros de um grupo trabalho de 32 especialistas, que vão
desde antigos funcionários do governo até líderes religosos, presidentes de
organizações e acadêmicos internacionais.
Os
autores do estudo afirmam que o governo dos Estados Unidos não tem capacidade
de entender completamente e nem sabe lidar de maneira eficaz com as comunidades
religiosas. Houve progressos nos últimos anos no reconhecimento sobre o papel
da religião nos assuntos mundiais, mas esse processo está longe de
completar-se.
Seja
bem ou mal, a religião desempenha um papel cada vez mais influente na política,
observou o estudo. A tendência à globalização com novas tecnologias de
comunicação facilitou a difusão dos pontos de vista extremistas.
O
estudo chama o governo dos Estados Unidos não somente a melhorar seu
conhecimento das comunidades e tendências religiosas, mas também a desenvolver
melhores políticas para entrar em contato com os crentes.
É
importante perceber que a religião não é uma espécie de experiência humana
secundária sem relação alguma com os desdobramentos políticos e que,
portanto, possamos ignorar. “A religião - através de suas ideias motivadoras
e o poder mobilizador de suas instituições - conduz a política por direito próprio”,
indicava o estudo.
Também
advertia contra uma visão da religião somente através do foco de terrorismo,
que seria negligenciar o papel positivo da religião ao tratar os problemas
globais e promover a paz.
O
estudo ainda observou que é preciso ir além do mundo muçulmano e levar em
conta outras comunidades religiosas.
Global
Embora,
quando se trata do vínculo entre religião e política, muitas vezes a atenção
é concentrada sobre o Oriente Médio, o estudo observa que a religião é um
fator levado em conta em muitos países.
Na
China, por exemplo, existem novos movimentos religiosos nativos, como Falun Gong,
um setor em expansão de igrejas cristãs e comunidades muçulmanas legais e
clandestinas.
Os
monges budistas justificaram, e promoveram, o conflito contra a comunidade tâmil
no Sri Lanka, assim como se manifestaram contra o regime repressivo da Birmânia.
Existem tensões entre cristãos e muçulmanos na Nigéria e Indonésia, mas
também em cidades europeias como Londres, Amsterdã e Paris.
Na
Índia, os debates políticos são frequentemente influenciados por visões
diversas do hinduísmo e a correspondente relação dos hindus com outras
comunidades étnicas e religiosas.
O
aumento do pentecostalismo na América Latina e de igrejas cristãs e dos
pregadores na África e Ásia são outros importantes desdobramentos religiosos
que exigem atenção, diz o estudo.
Ainda
que a religião tenha promovido conflitos sangrentos em países como a Bósnia e
o Sudão, também promoveu paz e o perdão na África do Sul e na Irlanda do
Norte. Além dos extremistas religiosos, existem outras figuras, como o Papa João
Paulo II e o Dalai Lama, observava o estudo.
“Os
muitos exemplos de contribuições religiosas para a democratização e de líderes
religiosos que ajudam a proporcionar assistência externa, põem em execução
programas de desenvolvimento e a construção da paz são emblemáticos. A
religião pode desempenhar um papel positivo em qualquer parte do mundo”,
afirma o grupo de trabalho.
Padrões
Os
membros do grupo de trabalho identificaram seis padrões principais no papel da
religião nos assuntos internacionais.
– A influência dos grupos religiosos – alguns antigos e
outros novos – está aumentando em muitas partes do mundo e afeta praticamente
a todos os setores da sociedade.
– As mudanças nas características de identificação religiosa no mundo têm
significativas implicações políticas.
– A
religião se beneficiou e se transformou com a globalização, mas também
chegou a ser um dos meios primários a organizar oposição à mesma.
– A
religião desempenha um papel público importante, nos lugares em que os
governos carecem de capacidade e legitimidade em momentos de tensão econômica
e política.
– A
religião está sendo usada pelos extremistas como um catalisador de conflitos e
um meio para aumentar as tensões com outras comunidades religiosas.
– A
crescente relevância da religião hoje tem aprofundado o significado político
da liberdade religiosa como direito humano universal e fonte de estabilidade
social e política.
Mais
especificamente, o estudo assinalou que essas tendências podem apresentar
desafios na tomada de decisões políticas. Por exemplo, enquanto os Estados
Unidos apoiam a difusão da democracia, em alguns países a introdução de eleições
populares daria mais poder aos extremistas religiosos que tendem a ter pontos de
vista antiamericanos. Assim, segundo o grupo de trabalho, deve haver uma
conciliação entre a promoção dos direitos humanos, democracia e a proteção
dos interesses nacionais.
O
estudo afirma também que é necessário que a promoção da liberdade
religiosa, como parte da política externa dos Estados Unidos, seja conduzida de
forma que não seja vista como uma espécie de enfrentamento da sociedade
ocidental às religiões e costumes locais.
Recomendações
Ao
tratar do papel da religião nos assuntos públicos, o estudo diz que a melhor
forma de combater o extremismo é através de um maior compromisso com a religião
e com as comunidades religiosas.
Isso
significa escutar atentamente as preocupações e medos que têm e, em seguida,
iniciar um diálogo significativo com elas. É importante não intervir em
disputas teológicas ou tentar manipular a religião, adverte o grupo de
trabalho.
O
estudo reconhece que uma das coisas mais importantes que os Estados Unidos devem
fazer é aprender a se comunicar de modo eficaz. Portanto, além de ouvir o que
as comunidades religiosas têm a dizer, é necessário tornar o governo mais
eficaz em apresentar os pontos de vista norte-americanos. Também é vital ter
em mente que as ações falam mais alto que as palavras.
Entre
as medidas propostas no estudo está a necessidade de dar uma formação
compreensiva aos diplomatas, militares e outros funcionários sobre o papel da
religião nos assuntos internacionais.
O
estudo também recomenda que os Estados Unidos continuem promovendo a liberdade
religiosa. “As limitações impostas à liberdade religiosa debilitam a
democracia e a sociedade civil, envenenam o discurso político e incentivam o
extremismo”, comentava o grupo de trabalho.
Cooperação
saudável
O
papel da religião na política foi abordado por Bento XVI em seu discurso aos
membros do corpo diplomático no dia 11 de janeiro.
“Infelizmente,
em alguns países, especialmente os ocidentais, difunde-se em âmbitos políticos
e culturais, assim como nos meios de comunicação, um sentimento de baixa
estima, e às vezes de hostilidade, para não dizer desprezo em relação à
religião, em particular a religião cristã”, comentava o Papa.
O
pontífice afirmava que “é evidente que, se o relativismo é considerado um
elemento essencial da democracia, corre-se o risco de conceber a laicidade só
em termos de exclusão ou, mais precisamente, de rejeição da importância
social do fato religiso”.
Tal
postura, no entanto, só cria confronto e divisão, apontava o Papa. “É
urgente definir uma laicidade positiva, aberta e que, fundada em uma justa
autonomia da ordem temporal e da ordem espiritual, promova uma saudável
colaboração e espírito de responsabilidade partilhada”. Uma colaboração
que beneficiará muito os esforços para promover a paz no mundo.
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