
A Sapucaia franzina
A persistência por viver desta árvore centenária, sem cuidados especiais e sempre solitária porque longe do seu habitat natural, apesar de estar no meio do povo, gera em mim profundo carinho e admiração por sua singela presença franzina, no fim da primeira rua de Alenquer.
Morei sempre às proximidades dela e, tenho certeza, quando cheguei ao mundo ela ouviu também o meu primeiro grito de vida e viu-me crescer centímetro a centímetro, dia a dia... Porém, jamais ouvi um seu lamento, uma reclamação qualquer, sequer um gemido de dor, principalmente, durante os meus idos de moleque, hoje sou sessentão, quando de cima do caiszinho que separa a rua do rio e que passa quase roçando seu tronco, me atirava brincando dentro da água corrente do Itacarará.
Éramos felizes! Eu absorto em minhas brincadeiras dentro dágua e ela no seu silêncio me expectando. Quanta saudade tenho daquele tempo, ó minha sapucaia! Continuas no mesmo lugar e eu caminhando por plagas longínquas...
Ela sempre enfrentou com firmeza a voracidade das águas amazônicas, afinal é sua a vida que defende, sempre se sobrepondo, pois as águas voltam ao curso normal e ela permanece imponente e impassível no seu nicho. Isto, todo ano, durante seis meses. Mesmo pequenina, não se entrega às forças do Rio Amazonas, o que chega a levantar rumores de que, por amá-la tanto, este gigante vem beijar seu tronco todo ano, daí as enchentes que afetam toda a Amazônia...
Nunca cheguei a subir nela, achava-a baixinha e frágil demais, bem miruíra. Seus raros galhos não me ofereciam estímulo, mesmo eu sendo um magro moleque.
Hoje, vendo-a na foto, descubro que foi plantada em lugar errado, dentro da rua, sobre a parte que deveria ser calçada, passarela de pedestres, quando deveria estar no lado de fora. Ela é única nessa posição na Presidente Vargas. Como a maltratamos com essa nossa negligência!...
Coitadinha, mas será que ali foi plantada premeditadamente, ou nasceu casualmente, ou por livre e espontânea vontade do seu gérmen? Mesmo sem respostas para essas perguntas, isto mostra que nós, seus irmãos de berço, não lhe dedicamos nem mesmo esse cuidado de plantio. Assim, nasceu, cresceu e vive graças à persistência do seu amor pela vida, fato que o Criador nos dá como exemplo a seguir.
Quando a conheci ela já tinha esse tamanho, não passou disso, foi sempre mirrada e de presença insignificante, sem nada a oferecer, enquanto suas irmãs de mesma idade, enormes e frondosas, oferecem sombras para aconchegos e atraem olhares passantes.
Também nunca provei um fruto seu e também nunca a vi frutificar, porém num destes anos recentes, contaram-me, ela ficou atopetada de ouriços que quase vai ao chão de tão pesada que ficou. Ela gerou numa só barrigada, tudo o que deixou de fazer no decorrer dos mais de cem anos de sua existência, pensei comigo. Imagino que deve ter ficado linda e soberba, como uma ximanga típica. Este foi o tempo mais feliz de sua vida, pois carregada de rebentos, atraiu a atenção de toda a cidade. Finalmente, minha sapucaia tornara-se uma árvore como todas as outras. Maju
DESCRUZE OS BRAÇOS,
NÃO DEIXE UMA VIDA MORRER!
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