O LETRADO
Caros visitantes do sítio Ninho da Natureza, meu nome é Irineu Assunção Milléo e sou alenquerense das brenhas do Rio Curuá, brenhas que hoje não mais pertencem Alenquer, mas ao município de Curuá, porque elas se tornaram independentes ao ouvirem o brado de sua população pela Liberdade. Fui convidado a escrever “alguma coisa para o Ninho da Natureza” que está no mundo virtual da Internet. Posso dizer que daqui do cantinho da minha saleta de informática, recanto do Boa Esperança, fiquei muito lisonjeado pelo convite.
Inicialmente, informo aos turistas deste sítio virtual que nunca sentei num banco de escola e nem sei como é a voz de uma professora dando aula diante de uma lousa. Na verdade, escolas e colégios para mim só os prédios, assim mesmo olhando de fora. Portanto, acredito que para vocês sou um homem rude sem muitas qualificações formais. Meu estudo dependeu quase que exclusivamente do meu esforço pessoal, quem sabe, para suprir minhas carências afetivas e superar meus complexos gerados pela ausência de meus pais. Pois fui encontrado abandonado numa canoa descendo um rio e minha vida devo aos pais de Hiléia, que me acolheram e criaram.
Aos 18 anos lia e escrevia bem e isto aprendi, primeiramente no sítio Sol Nascente, no abecedário encardido e todo roído do Florêncio, que ele guardava junto com uma tabuada no meio de uns papeis, no fundo de um baú de madeira que ele trouxe do Nordeste quando veio para o Norte; depois no sítio Boa Esperança, nos livros que Fortunato Milléo me trazia sempre que ía à cidade ou nas revistas e jornais que vinham nas caixas embrulhando a vidraria, que era vendida na loja. Eles exercitavam o meu raciocínio onde quer que eu estivesse, no campo com o gado, no rio pescando, na roça durante o descanso, no castanhal ou detrás do balcão da loja.
Lia tudo sem pular palavra e me divertia muito aplicando as quatro operações de matemática com os números das páginas. Quase tudo o que eu aprendia, passava para Hiléia, que foi também pegando gosto pela leitura e não mais parou, tanto que ela sabe ler e escrever muito bem. Matemática que não tinha jeito dela aprender direito, mas sabia alguma coisa...
O primeiro livro que li inteirinho, de ponta a ponta, foi um de História do Brasil que uma professora da Vila Curuá de passagem pelo Boa Esperança, arranjou-me. Infelizmente, nunca soube o nome dessa bondosa mulher. Tempo depois, chegou ao Boa Esperança uma caixa endereçada a mim, dentro da qual havia uns livros de Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos e Euclides da Cunha. Nunca soube quem os mandou, pois o remetente não se identificava. Estava escrito na caixa: “Para o Irineu”. Só. Andei desconfiado da professora, mas ficou só na desconfiança. Hoje, passados 33 anos, quero aproveitar esta oportunidade para agradecer do fundo do coração o gesto dessa pessoa caridosa o muito que fez pelo enriquecimento do meu saber. Estes livros fazem parte de minha biblioteca, onde têm lugar especial.
Batalhei também muito na Bíblia do Fortunato, velha e caindo aos pedaços. Li ela uma porção de vezes, desde a criação do Homem, passando por José no Egito e Moisés com o povo no deserto, os Evangelhos e Epístolas, até o Apocalipse. Hiléia também leu. Foi onde aprendi as palavras mais estranhas: Paraíso, Caim, Dilúvio, Abraão, Isaac, Arfaxad, Sodoma, Gomorra, Habacuc, Jerusalém, Mifiboset, Baruc, Holofernes, Absalão, Nabucodonosor, Eclesiástico, Melquisedec, Isaías, milagre, Iscariote, ressurreição...
Quando ainda engatinhava na leitura, minha companhia predileta era um almanaque do Biotônico Fontoura. Praticamente, foi nele que aprendi a soletrar as primeiras palavras complicadas como An-chi-los-to-mi-na, que parece era nome de um remédio que matava vermes que infestam as barrigas dos animais, inclusive as nossas. Deliciava-me com as façanhas do Jeca Tatu, um caipira raquítico, cheio de preguiça e indisposição que, depois de tomar o tal remédio, ficou forte, disposto e trabalhador, e tudo no seu sitiozinho cresceu cheio de viço. Ele dizia que os bichinhos entram na barriga através dos pés descalços. Foi por isso que, além das criações que o Jeca criava no terreiro, até os porcos passaram a usar sapatos. Hiléia se divertia a beça quando lhe contava esses casos. Acho que o meu costume de sempre andar com tamanco ou chinelo no pé veio daí.
Gostava mais de ler quando estava caçando, principalmente de tocaia trepado na árvore, pois assim tinha tempo de aprender mais sossegado. Nessas horas era gostoso o cântico dos passarinhos, a zoada das cigarras, dos grilos, dos sapos, do vento soprando as folhagens. Não esqueço o grito estridente do gavião panema em cima do taxizeiro, afastado coisa de poucas braçadas da beira do lago. E o que dizer, então, da algazarra dos merequéns no tucumanzal?... Não, não me perturbavam, eram um tipo de barulho natural, cheio de prazer, relaxante, que reforçava o meu sossego de espera e leitura.
Tinha vezes que minha concentração na leitura era tanta que me esquecia completamente da caça, como foi o caso de um casal de antas e do filhotinho. Eles vieram, beberam água na lagoa, acho até que descansaram debaixo da árvore onde estava trepado, e foram embora. Só fui vê-los quando já estavam entrando na mata. A mesma coisa aconteceu com um bando de catitu, só que ainda dei um tiro em cima desses, mas o bando já tinha se metido no meio do murizal. Quando me lembro dessa fase da minha vida um sentimento fininho vem do fundo do meu coração, acho que é saudade daquele tempo...
Quando comecei a ler determinados livros e passei a observar a influência que geravam em mim, fato que notava pela facilidade de entender as coisas, tudo ía ficando claro na minha cabeça, assim como as sombras da madrugada transformando-se prodigiosa e lentamente em paisagens coloridas pelo raiar do dia. Sim, era mesmo como um desabrochar do entendimento dentro de mim. Achava maravilhoso o mundo da leitura como um meio de adquirir e acumular conhecimento, mas deixava-me simultaneamente solitário, porque ía transformando-me num espécime raro naquelas brenhas de Alenquer e isto me angustiava.
O conhecimento pulava do livro para dentro de mim em quantidade enorme de descobertas, assim como se tivesse tarrafiando um cardume em piracema. O cardume era o conhecimento. Parecia que minha inteligência se abria descontroladamente para abarcar tudo em volta. Eu não dava conta da pesca, ou melhor, de tudo o que aprendia, então usava o que me servia, mas o conhecimento ficava dentro de mim acumulando, acumulando, em letras, palavras, frases, números em opração, imagens, detalhes de histórias, nuanças de fatos, origem da vida, filhos, flores, frutos. Foi então que passei a escrever tudo o que sentia, pensava e observava, como se estivesse conversando comigo mesmo.
Ficava fascinado com os livros, pois mesmo sendo mudos, transmitiam-me as idéias de alguém que viveu há muito tempo, como Moisés, Davi, Jesus Cristo, Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos. Um manancial de conhecimento descoberto por esses homens, que se dedicaram a melhorar o mundo. O incrível de tudo isso é que as idéias desses homens, mesmo depois de todo esse tempo, não envelheceram, ainda estão cheias de força vital dando o rumo à nossa existência. As de Jesus Cristo até parecem o começo e o fim de tudo. Hoje, o que se escreve, é praticamente apenas a interpretação delas conforme as circunstâncias e o tempo. Nada de novo surgiu na face da terra, desde então, o que tinha de ser pensado ou falado já foi dito há muito tempo, eles disseram...
Ler não se faz só em livro ou onde tem uma palavra escrita, mas em tudo o que existe ao redor da gente, na natureza. O livro é apenas a vasilha que guarda e transporta essa experiência, assim como a água que a preta Zulmira ía buscar no rio para encher a talha. Tanto o conhecimento dos livros, como a água do rio, são imprescindíveis para a nossa vida, todos nos alimentam. O primeiro alimenta nossa alma e a água o nosso corpo físico.
Todo momento é momento de aprender, pensava. Não havia um dia no Sol Nascente ou no Boa Esperança, em que eu não aprendesse alguma coisa. Estava sempre aprendendo. O mundo está cheio de detalhes, muitos já conhecidos, mas sempre se pode dar uma olhada enviesada nesses detalhes e descobrir algo importante, que não foi descoberto.
Certa manhã no Sol
Nascente, Aurora, Hiléia e eu estávamos pescando camarão na beira do lago,
quando dois passarinhos voavam até à ribanceira, pegavam com o bico um pouco de
barro e retornavam para o galho de um catauarizeiro próximo.
Um vinha e o outra ía. Estavam nesse vai-e-vem há horas carregando sempre aquele
tiquito de barro no bico.
- Mãe, quem ensinou o joão-de-barro fazer ninho diferente do japiim, perguntou Hiléia olhando para a árvore onde estava um dos passarinhos.
- Este saber já está dentro deles desde quando Deus criou o mundo, respondeu Aurora limpando a camaroeira.
- Quer dizer que eles já nasceram sabendo, não são como a gente que ensina os filhos, assim como a senhora faz comigo para eu aprender a costurar, tornou a perguntar Hiléia se chegando para junto da mãe.
- Deixa de te preocupar com essas besteiras e vem pegar camarão, que o rio já está crescendo, respondeu Aurora mudando de assunto e descendo a ribanceira para colocar a camaroeira dentro da água.
Um verão depois, eu pescava mandubé neste mesmo lugar e o ninho do joão-de-barro me chamou a atenção. Por curiosidade, subi na árvore para dar uma espiada bem de perto no dito. Quebrei-o . Vi somente penas, fragmentos de casca de ovo e traços de excremento. Literalmente, o ninho estava vazio. As crias já tinham batido as asas mundo afora.
Até então eu nunca tinha reparado detalhadamente um ninho de passarinho, especialmente o do joão-de-barro, apesar de sempre estar vendo nos galhos das árvores, com aquela imponência de casa sem janela e com uma porta só, sempre com a frente voltada para uma direção premeditada. Mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de que ela expressava um aconchego e uma proteção que só essas avezinhas sabem fazer. O trabalho, a paciência, a persistência e a arte estavam juntos como uma mensagem pedagógica.
A natureza é realmente a fonte de todos os conhecimentos. Tudo tem uma razão de ser, nada foi criado por acaso. São raríssimas as pessoas que pensam o contrário. Até mesmo uma folha caindo da árvore, que a gente não dá valor, carrega uma carga enorme de informações. São mensagens naturais que estão nas entrelinhas da vida, que só podem ser descobertas se a gente se propuser a entendê-las. Somos livres para interpretar, por exemplo, que a folha que caiu da árvore "caiu de madura" ou, então, que a árvore se desfez dela porque não mais precisava dos seus "serviços". O chão, por sua vez, precisava das suas substâncias para enriquecer o solo; e o solo enriquecido para melhor alimentar a própria árvore e outras que nascerão.
Claro que tudo tem uma finalidade, obedece a uma ordem natural preestabelecida, cabe a nós apenas tomarmos consciência dessa realidade para ver as coisas acontecerem dentro de seus objetivos. Caso contrário, vivemos sempre na ignorância, indiferentes ao que se passa em torno de nós. Ninguém cai duas vezes em um mesmo buraco porque quer. A experiência da primeira queda aí é evidente, quem vai querer cair uma segunda vez se na primeira quase quebra uma perna? Vai tomar mais cuidado. E quem ensinou tomar mais cuidado? A experiência. Então, o conhecimento é uma luz que se adquire, uma luz que faz a inteligência cada vez mais alargar-se e desvendar tudo o que está escondido no mundo. Para o conhecimento, o segredo não existe, pois se existisse, sua claridade o tornaria conhecido, aí já não é mais segredo. O segredo só existe para a pessoa que retém o conhecimento, a egoísta. Quando esta morre, tudo que tem se acaba como ela. Ninguém nasceu sabendo, o conhecimento veio depois da vivência, quando o homem passou a refletir o que acontecia em si e ao redor de si. É por isso que o homem tem a mania de querer se apropriar de tudo o que vê e toca, o que o torna diferente dos animais e dos vegetais.
Foi assim que, tanto no Sol Nascente, como no Boa Esperança, observei árvores nascerem, frutificarem e morrerem. Pássaros construírem ninhos, ovos nicarem e os filhotes baterem asas no rumo das árvores do mundo. E homens construírem coisas. Ninguém ensinou as árvores frutificarem, tampouco os pássaros construírem ninhos. Alguma coisa dentro deles os instrui naturalmente. Mas o homem, mesmo tendo todas essas peculiaridades, para atravessar um rio antes observou a natureza para escolher a parte rasa e atravessá-lo ou fazer sucessivamente a canoa, o motor, enfim, construir a ponte para atravessar com segurança...
Assim, quem fez o primeiro livro? Ora, só pode ter sido alguém que não era egoísta e que sentiu a necessidade de proteger e transferir seus conhecimentos para as pessoas em outros lugares e para além dos anos, como patrimônio cultural da nação ou da humanidade, e inventou as letras e as palavras para isso. Sem experiência não tem conhecimento e sem este o homem é um animal como outro qualquer, age por instinto.
Tudo o que lia ou tomava conhecimento no Boa Esperança contava à Hiléia quando ía encontrar-me com ela no Sol Nascente. Ela ria à beça das histórias do Jeca Tatu e não podia imaginar o Espalhafatoso, um peru que a preta Zulmira cuidava com tanta estima, andando de sapato no terreiro, que caía na gargalhada. Foi dessa forma que a ensinei a ler e a escrever. Logo no início ela não queria saber de nada, pois sempre me perguntava para que isso ía servir-lhe naquele lugar perdido do mundo. Mas com o tempo ela foi sentindo a necessidade e começou a ler e até a escrever.
Quando notei que ela já estava mostrando interesse pela leitura, além das letras grandes e soletradas, levava-lhe do Boa Esperança revistas e recortes de jornais velhos. Com o passar do tempo, levei-lhe os meus livros que ganhei da professora da Vila Curuá. Ela adorava ler José de Alencar e ficou muito impressionada com o “Vidas Secas” de Graciliano Ramos. Ela não acreditava naquela secura contada no livro, pois vivia na abundância: terra, água, floresta de árvores imensas, rios e lagos sem fim, peixe, caça... Acho que esses eram os únicos livros em toda aquela região dos sítios Sol Nascente e Boa Esperança. Ninguém por ali era acostumado a ler, nem mesmo os mais abastados, dos quais muitos eram analfabetos, seus negócios eram feitos na base da intuição. Desses, acho que só Fortunato era ilustrado...
Hiléia leu também várias vezes a Bíblia de ponta a ponta. Ela gostava da história de Sansão e tinha Dalila como uma mulher muito bonita, cheia de encantos e muito ambiciosa, mas a condenava por sua traição ao entregar Sansão aos seus inimigos. Para ela, o rei Davi era da minha altura e o gigante Golias do tamanho do cumaruzeiro, que ficava afastado pouca coisa do curral do Sol Nascente. Olhava para a árvore e concordava com ela, pois a Bíblia não especifica a altura do Golias e nem a do rei Davi. Do profeta Jonas, o peixe que o engoliu só podia ter sido um pirarucu dos tebas ou, quem sabe, até mesmo uma piraíba, por causa da boca grande. Um dia Florêncio pescou um pirarucu enorme e ela estava de cócoras admirando o peixe estirado na ribanceira.
- Tem maior ainda, disse o pai.
- Então cabe mais de um Jonas dentro, falou ela olhando para o pai.
- O quê?... Perguntou Florêncio não entendendo o que a filha falou.
- Mas esses a gente não pega, só vivem no fundão dos rios, falei, ajudando Florêncio a descamar o peixe.
- Mas quando Deus quer, nada vai contra. Então esse pirarucuzão que vive na fundura pode muito bem vir pegar alguém aqui em cima, é só Deus querer, tornou a falar Hiléia.
- Para Deus tudo é possível, Ele que criou o mundo, então Ele que sabe! Este aqui, se fosse me engolir, só me engolia até o meio, eu ía ficar com as pernas de fora batendo que nem sapo na boca de cobra, falei brincando..
- Deixa de falar besteira, exclamou Hiléia apavorada com o que falei, pensamento ruim atrai ruindade, ainda mais tu que só vive dentro de canoa...
- Mas para que Deus ía querer que um peixe me engolisse? O caso de Jonas é diferente, Deus o tinha mandado fazer um tal trabalho e ele não queria ir. Então, Deus mostrou-lhe quem é que manda, se o Criador ou a criatura.
Quase todas as pessoas que frequentavam o Boa Esperança, depois que souberam que eu lia e escrevia muito bem, me chamavam de "Letrado". Eu parecia-lhes que entendia de tudo aquilo que elas nunca tinham ouvido falar ou se ouviram, foi malmente. Na verdade, elas achavam que eu tinha resposta para tudo o que desejavam saber e acreditavam fielmente no que eu falava. Perguntavam-me como foi que consegui aprender essa minha sabedoria naquele sitiozinho "perdido onde o diabo esqueceu a zagaia". Respondia-lhes que apenas segui a minha vontade de querer aprender, mas não sabia lhes explicar como, pois este como está dentro de cada um. Eles não podiam acreditar que alguém pudesse sair do sítio Sol Nascente lendo e escrevendo bem, ainda mais mexendo com os números como ninguém daquelas redondezas. Eles tinham consigo a idéia de que, por estarem em permanente contato com as pessoas de todas as partes da região como Alenquer, Santarém, Óbidos, Manaus, Belém, que passavam pelo Boa Esperança, sabendo das novidades da cidade, não careciam de ler e nem de escrever, pois isto as pessoas que chegavam faziam para eles.
Cansei de ler e escrever cartas e bilhetes para elas. No meu modo de ver, acho até que se sentiam importantes participando desse ato que não sabiam fazer, mas demonstravam muita vontade de querer saber fazer. Luciano Tobó, unzinho deixado da mulher porque era mulherengo demais e não queria nada com o trabalho, pediu-me para fazer um bilhete no qual ele terminava o caso com a Joaquina. Ele não sabia o sobrenome dela. Motivo do término: Joaquina não foi ao encontro marcado no cumaruzal, preferiu ir para o castanhal de cima ficar no bem-bom com o Pompeu dos Anjos.
- Joaquina sabe ler?, perguntei-lhe.
- Não, respondeu-me.
- E como ela vai ler o bilhete, tornei a perguntar.
- Mando dizer para ela vir falar com o senhor e o senhor lê para ela...
Depois vim a saber que Pompeu era da mesma laia de Luciano. Vivia perseguindo as mulheres no trabalho, especialmente durante as lavagens de roupa na beira dos igarapés ou durante as colheitas de milho, mandioca, castanha e cumaru. Bastava as mulheres ficarem sozinhas, que eles apareciam por entre as árvores que nem assombração. Parece até que eles farejavam cheiro de mulher sem homem perto. O pai de uma delas quase tira o troço do Pompeu para dar de comida aos bichos do mato. Se ficasse vivo, ía ficar que nem os capões que a preta Zulmira cria, gordos que só, sem outra serventia que não a de ser comido. Mas um bruto relâmpago, que iluminou o castanhal até bem longe, como aviso de que ía arriar tempestade, salvou Pompeu. O clarão se deu justo na hora em que Francisco, o pai ultrajado, estava ajeitando o terçado para capar Pompeu. Francisco, homem temente a Deus, embainhou o Rabo de Galo afiado que nem uma navalha, pegou a filha pelos braços e foram embora antes que a tempestade arriasse. Pompeu, ficou amarrado no chão com cipó tracuá, rouco de tanto gritar e chorar, sem saber a que santo agradecer aquele milagre, mas prometendo de agora em diante respeitar todas as mulheres. Mas ficou só mesmo na promessa de macho apavorado, quatro dias depois estava no castanhal de cima com a Joaquina, namorada do Luciano Tobó.
Outros queriam saber o que algumas notícias, que saíam em revistas e jornais que os barqueiros traziam ou que vinham embrulhando mercadorias, diziam a respeito de determinadas figuras, principalmente se estas eram de mulheres bonitas. Um dos vaqueiros do Boa Esperança, o Mundico Rouxinol, certo dia mostrou-me uma página toda amassada da revista O CRUZEIRO, que fazia tempo andava com ela no bolso, e pediu-me que lesse o que estava escrito sobre a mulher que estava na fotografia. A mulher era a cantora Adelaide Chiozzo e a notícia falava de sua apresentação em uma casa de espetáculo do Rio de Janeiro.
Na verdade, éramos diferentes apenas na bagagem da cabeça, eu sabia ler e escrever e eles não. Eu podia decifrar aqueles inúmeros "riscos no papel, feitos de coisinhas todas seguidas juntinhas", e eles não. Mas éramos todos matutos. Do meu lado desenvolvi minha capacidade intelectual e eles permaneceram no estágio nativo. A grande maioria não sabia diferençar sequer uma letra de um número, ou um ponto de uma bosta de mosca. Eles davam-me a entender que eu era uma espécie de gente rara e, realmente, ainda é assim que eu me sinto, sozinho, no meio deles.
2004 Copyright © Eliezer de Oliveira Martins
maju@amazon.com.br
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