Olá,
Bené, li teu artigo em O Liberal do dia 16 de janeiro.
Um artigo histórico e de muita profundidade,
coisa que só mesmo um escritor da tua estirpe pode fazê-lo. Uma narração
simples de um fato restrito a uma família tradicional alenquerense, mas de
dimensão universal, pois aborda peculiaridades cristãs, que tanto tu como
Ignêz possuem neste mundo carente. Gostaria
de publicá-lo em minha página na internet www.eliezer.ninhodanatureza.nom.br,
link Fatos, Somente Fatos. Aguardo tua permissão. Abraços.
Eliezer Martins
+
Caro primo Eliezer, agradeço teu e-mail e tens autorização para publicá-lo na tua pagina, abraços. Benedicto Monteiro.
+
Eis
o artigo:
A
minha irmã Ignêz
Benedicto
Monteiro
Os
que leram a minha biografia escrita através das minhas idéias, Transtempo,
sabem que eu tenho uma irmã chamada Maria Ignêz, freira, carmelita descalça,
que, do Carmelo situado em Belo Horizonte, passou para o Carmelo de Divinópolis,
em Minas Gerais. Ela morreu de um infarto fulminante.
Talvez, da nossa família, eu seja a pessoa que mais sabe das decisões que
ela tomou de se isolar do mundo num convento carmelita. Ela estudou Medicina e
trabalhava no Instituto Nacional de Puericultura, quando resolveu destinar-se à
vida monástica.
Eu não tinha a idéia do tipo de convento, onde ela pretendia se isolar
ou se associar para servir unicamente a Deus. Quando fui visitá-la no convento
de Belo Horizonte, fui informado de que eu, como irmão, podia falar com ela no
parlatório. Quando cheguei ao Carmelo, depois de me identificar como seu irmão,
fui encaminhado ao parlatório. Apesar do espaço do parlatório ser grande, eu
só pude falar com ela atrás de uma janela , separada por duas grades, uma de
ferro e outra de madeira. E, por trás dessas grades, ainda havia uma cortina de
veludo.
Para mim foi constrangedor, mas, para ela, senti que a minha presença
separada por ferro, madeira e pano deu-lhe uma grande alegria. Foi um encontro que
marcou a minha vida. Depois, me explicaram que as freiras carmelitas descalças
eram divididas em três classes:as freiras externas, que ajudavam a administração
e a coleta de donativos; as freiras internas, que eram divididas em
trabalhadoras domésticas, e as contemplativas, que se dedicavam apenas a rezar
e a cantar.
Minha irmã Maria Ignêz era cantora e rezava.Viveu rezando e cantando
mais de meio século. Certa vez, depois que o Papa João XXIII liberou as freiras
do total isolamento, minha irmã visitou nossa casa em Belém, por causa da doença
de nossos pais. E também por causa da liberação papal, passamos nós, todos
seus irmãos, a nos comunicar por carta, telefone e visitas que fazíamos no Carmelo
de Divinópolis.
Enclausurada por livre e espontânea vontade, por rigorosa vocação monástica,
por extraordinária inclinação contemplativa, por admirável temperamento místico
e, sobretudo, por convicção inabalável e a mais profunda fé, restauraste em
mim uma existência cristã, aperfeiçoada por uma dedicação franciscana, no meio
deste povo.
Não restabeleceste a minha crença na Revelação, mas me ajudaste a reforçar
a minha fé em Cristo e na vida de São Francisco de Assis. Creio que foi este o
teu grande milagre, que as tuas rezas e os teus cantos conseguiram fazer em mim.
Morreste, minha irmã, segundo pensavas: vais para a presença de Deus.
Encontrarás agora nossos pais, a nossa irmã Wanda e a minha querida mulher Wanda,
que faleceu recentemente. Eu fico por algum tempo entre os homens e as mulheres
com quem aprendi a viver e a conviver, segundo as mensagens de Cristo e a vida e
o exemplo de São Francisco de Assis.
2004 Copyright
© Eliezer de Oliveira Martins
maju@amazon.com.br