o padroeiro de minha terrA
VALEI-ME, MEU SANTO ANTÔNIO
Eliezer de Oliveira Martins
Antônio, antes de iniciar este nosso colóquio, quero declarar que te tenho uma afeição muito grande. Uma devoção profunda, quem sabe, por eu ter nascido e crescido quase dentro da igreja da qual és o Guardião, em Alenquer. Nossa casa fica bem em frente. Naquele tempo, o largo da praça era todo contornado de mangueiras e benjaminzeiros e era o habitat preferido de minhas brincadeiras. Quase toda hora do dia, quando não estava na escola, perambulava por ali brincando... Assim, eu sabia a hora de missa, reza de ladainha, quem se batizava, casava, morria, batia o sino, arrumava as flores no altar, enfim, quem entrava e saía da igreja.
Meus pais eram religiosos de fé. Fé mesmo. Um, o seu Luiz, era mariano, e o outro, a dona Geraldina, era filha de Maria, mas ambos teus devotos. Eles que escolheram o Frei Guido para meu padrinho de Primeira Comunhão. Já pensaste, eu, um moleque levado que só, ter um padre como padrinho? é verdade, meu caminho na espiritualidade católica foi decidido naquela época e ninguém me tira da cabeça que não foi obra tua, atendendo a pedido de minha mãe. Eu não era chegado às liturgias da Igreja, frenquentava mais por exigência dela, que ficava sempre no portão de casa, vigiando-me entrar na igreja para assistir às missas de domingo. Entretanto, quando ela se recolhia em casa, satisfeita por eu estar cumprindo minhas obrigações religiosas, eu saía para brincar. Ela não sabia que eu, lá de dentro, vigiava também os seus movimentos no portão...
Na realidade, Antônio, eu não estava nem aí para o que o padre, de costas, dizia na missa, ainda mais quando ele falava em língua estranha, como "In nómine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti", "Kírie eléison", "Christe eléison", coisas assim. Somente quando eu não conseguia burlar a vigilância de minha mãe, era que eu assistia à missa, mas ansioso por ouvir o padre dizer "Ite missa est".
Foi um suplício aprender a rezar o Credo e o Ato de Contrição, geralmente eu me esquecia do resto lá pelo meio. Até que o Pai-Nosso e a Ave-Maria foram fáceis. Pecado? Me corria um frio danado no corpo, quando pensava confessar-me. Como dizer ao padre que eu pulei furtivamente o muro da casa dele para apanhar sapotilha?... Ainda mais quando o confessor era o meu padrinho! Como penitência, quase sempre eu ganhava um bocado de avemarias e painossos.
Tua festa
Era uma alegria geral quando chegava o dia da tua festa, Alenquer enfeitava-se toda para homenagear-te, ficava que nem uma mocinha linda e cheia de sassaricos. O caiszinho da rua da frente, marginando o rio Itacarará, todo enfeitado de bandeiras e piririmeiras, ficava atravancado de embarcações. à noite, a igreja toda iluminada era o marco da festa. Te lembras do foguetinho? Claro que te lembras, pois nunca desviastes o olhar de mim, sempre me protegendo.
Sim, foi na festa de 1955. Tinhas acabado de te recolher ao nicho, depois da volta que deste pela cidade acompanhado por um mundão de gente, romeiros em procissão, que vieram de todos os lugares render-te homenagens. Da janela de casa eu te vi passar, orgulhoso que só, carregando o Menino Jesus.
Pois bem, eu e um meu primo brincávamos com foguetinhos no arraial apinhado de gente. Era gostoso vê-los espocar e o pessoal pular espantado. Me divertia à beça. Simultaneamente, na igreja também superlotada realizava-se a santa missa. Em dado momento, todos que estavam no arraial pararam ao ouvir os sons das campainhas vindos de dentro da igreja. Silenciou-se o largo. Era a hora do Santíssimo.
Nisto, eu segurava um pega-moleque e meu primo acendia-o. Não sei como o danado, já aceso, saiu de minha mão, passou por cima do pessoal da praça e entrou na igreja por uma das janelas do coro. E aconteceu uma explosão dentro de mim. De terror. De medo. De pavor. Sei lá o que senti naquele momento. Uma sensação horrível. Infernal. No fundo do meu coração em rebuliço, pensei em ti: Valei-me, meu Santo Antônio, valei-me! Sabe, aquele foi o único foguetinho que não espocou...
Mundo do avesso
é verdade, naquele tempo eu era realmente feliz. Era livre. Estavas sempre perto de mim, orientando-me, dando-me forças, brincando comigo. Eu até podia sentir tua presença paternal. Geralmente ao meio-dia, quando todos na cidade descansavam na sesta, eu subia a torre da igreja para ver o sino de perto e tocá-lo levemente com as costas dos dedos, ou olhar a cidade lá de cima. Era engraçado ver meus companheiros lá embaixo, uns pontinhos se movendo no chão. Eu sabia que tu te divertias comigo. Mas, as minhas calças, que eram curtas, tornaram-se compridas, e afastei-me de ti. Corri o mundo, minhas preocupações também cresceram e esqueci-me de ti...
Hoje, meu querido Padroeiro, procuro ser realmente um cristão católico, até me esforço para isso. Mas como sê-lo neste mundo com as coisas viradas do avesso, onde o condenável é aplaudido cinicamente pelos meios de comunicação, influenciando maleficamente as mentes indefesas? Como agir serenamente diante de governos arrogantes e corruptos, de autoridades hipócritas e de fazedores inescrupulosos de guerra? Como chamar irmão a um sequestrador, estrupador ou a um terrorista que mata crianças fria e premeditadamente? Ou, então, como relacionar-se com um narcotraficante que espalha pela sociedade a deliquência e a prostituição? Como ser manso diante dos concentradores de riqueza, enquanto a grande maioria dos homens está sem abrigo, sem educação e com saúde débil, e milhares morrendo de fome? Valei-me, meu Santo Antônio, valei-me!...
2004 Copyright © Eliezer de Oliveira Martins
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