o ninho da natureza
UM HOMEM DE POSSE

A casa
principal do sítio Sol Nascente foi reconstruída em alvenaria e coberta de telha
de Brasilit, mas continua com as mesmas divisões internas e as varandas
laterais. O banheiro e a sentina que ficavam no terreiro, agora estão dentro da
casa. Florêncio custou a se acostumar com o assento sanitário e a descarga,
preferia a retrete do terreiro.
Não se vê mais o sol nascer, fato que originou o nome do sítio,
um caramanchão construído na frente da porta empata a visão. A casa original
pegou fogo, durante um verão forte que enfrentamos na região, inclusive os
castanhais e os cumaruzais da redondeza foram queimados, fato que fez seus donos
plantarem capim para gado. A casa de farinha agora é do trator,
onde descansam também o caminhão e a voadeira. Alguns japiins ainda fazem festa
nas sapucaias...
O bosque, onde Hiléia e eu brincávamos, tem árvores novas,
principalmente acerola. O abricozeiro que ficava perto da casa do poço foi
derrubado devido à idade, tornou-se perigoso demais, vez por outra caía um galho
podre em cima da casa.
A casa da mãe Zulmira queimou também. Restam apenas uns esteios
em pé, o central tem um ninho de cupim no meio, o que dá um aspecto lúgubre à
paisagem.
Como já disse, a mata transformou-se num escampado verde a
perder-se de vista, com os esqueletos das árvores queimadas a lembrar que
outrora o lugar foi rico em madeira de lei. A castanheira, embaixo da qual
Hiléia e eu trocávamos juras de amor, é a única árvore de porte que permanece
viva no meio do campo, servindo sombra para o gado. Parece até milagre não ter
sido queimada com aquele fogaréu medonho. Apesar de sua imponência, nunca mais
deu um ouriço sequer.
Já quase não há animais silvestres. Os que não conseguiram
fugir, o fogo matou. Milhares e milhares foram queimados, possivelmente, muitos
extintos. Zé Onça, vaqueiro do Sol Nascente, vez por outra chega com uma paca
pendurada na cilha da sela que pegou no campo, perdida, atrás de água.
O caminho, que passava na frente da casa, virou uma estrada
larga, que corta o sítio no meio e encurta a distância entre a cidade e a
colônia, facilitando a comunicação. Esta estrada tornou difícil a vinda de
alguém do Sol Nascente ao Boa Esperança, pois a viagem de carro até a cidade
dura o mesmo tempo de voadeira até aqui, com a vantagem de que a cidade, agora,
oferece mais novidades, como energia elétrica 24 horas por dia, telefone,
televisão...
Os merequéns já não fazem festa no tucumanzal, acho que o
barulho dos caminhões que passam constantemente ao lado, não deixa, ficam
espantados ou apavorados. O açaizal também não existe mais, foi transformado em
palmito e vendido nos restaurantes de Manaus.
Quase sempre de tardinha, um avião passa muito alto rasgando o
céu no rumo do sul, mas só se vê o rastro branco que ele deixa atrás de si
parecendo fumaça. Algumas vezes ainda se consegue ver o corpo dele, como um
pontinho brilhante voando na frente do rastro...
Hiléia ao chegar no Sítio do Sol Nascente chorou muito quando
viu os pais. Apesar de parecerem estranhos um para o outro, foi um encontro
emocionante, pois o casal tinha como certo que a filha tinha morrido afogada em
Alenquer. Afinal, quando ela sumiu durante a festa de Santo Antônio, era uma
mocinha de quase 15 anos, agora é uma mulher vivida. Assim, depois de 16 anos
sem se verem, o reencontro dos pais e filha aconteceu como um milagre para os
primeiros.
Eu mesmo, quando a vi na boate do Palácio dos Bares, na Condor,
em Belém, não a reconheci imediatamente. A coisa aconteceu devagar, pois ela
transformara-se muito com a vida que levava na Capital. Além do vestido
espalhafatoso que vestia, estava cheia de pintura e balangandãs nas orelhas e no
pescoço, usando uma peruca loura. Ela adora usar perucas, tem uma que parece
feita de cabelo de espiga de milho. Os cabelos pretos brilhantes que tanto eu
gostava nela, estavam com uma cor sem vida, encardidos, acho que de tanto serem
pintados.
Não. Não é que eu não goste, é que o contraste é muito forte
com a cor dela, dá-lhe um ar artificial. Imagina que agora nem mesmo sabe pisar
descalça no chão, usa uns sapatos de salto alto, que parece andar
equilibrando-se na ponta dos pés. No braço direito ela tem uma cicatriz.
Ela ainda não me disse como e porque sumiu de Alenquer naquele
véspera do dia de Santo Antônio. Este é um assunto que remoinha meu coração,
fez-me sofrer muito. Ela diz que a melhor parte de sua vida foi vivida no Sol
Nascente, onde realmente era livre e feliz. Tem três filhos, Mandelinho,
Johnzinho e Itoinho. Johnzinho é louro, olhos azuis, alto e autoritário, é o do
meio. Itoinho é baixo, olhos espichados, imita tudo o que vê, é muito perspicaz.
Mandelinho é preto, forte e tímido, é o mais velho, faz tudo o que os irmãos
querem, como se fosse um criado.
Florêncio, sempre de chapéu de palha na cabeça, não tira o
porronca da boca, diz que é a distração dele, já que não pode trabalhar devido a
uma dor que lhe apareceu nas costas. Está sempre sentado na varanda, olhando o
gado pastar no campo da frente. Mostrou-se indiferente no reencontro com a
filha.
Aurora ainda está uma mulher forte e continua vaidosa, sempre
com um pano na cabeça protegendo os cabelos esbranquiçados cheirando a patchuli.
Lembra a mulher bonita que foi, apesar do trabalho duro que leva. Quando
reconheceu a filha, ficou feliz, mas alguma coisa muito profunda mudou entre as
duas.
- Mas por que você não deu notícia contando que estava viva,
minha filha? Perguntava Aurora.
- Depois lhe conto, mamãe, agora, quero descansar, é muito
cansativa esta viagem da cidade até aqui.
Mãe Zulmira mora comigo no Boa Esperança, também já está de
cabelos ficando branco, mas sempre esperta e preocupada comigo. Está usando
óculos e seus olhos, que eram miúdos, agora ficaram miudinhos. Continua exigente
e cheia de pressentimentos. Só vai dormir quando estou em casa. Não posso chegar
fora de hora ou dormir fora de casa, que ela passa o resto do dia resmungando,
que eu não gosto mais dela, que eu prefiro as sirigaitas que frequentam a loja
do Boa Esperança ou as beiradas dos rios e coisa e tal. Ela não confia em
nenhuma mulher, diz que a única em que confiava era Hiléia. É uma preta bondosa,
de coração deste tamanho.
Fortunato Milléo morreu do coração ainda na década de 60, logo
depois que estourou a tal "Revolução". Dizem que foi de desgosto, devido ao
constrangimento que os militares lhe impuseram, porque prestou ajuda ao Deputado
Bené Monteiro. Isto já te contei em Belém, mas estou contando de novo no meio
dessa papelada que estou te mandando, porque ele foi como um pai para mim. O
Milléo do meu nome foi tirado do dele, assim como o Conceição do da mãe Zulmira.
Como ele não tinha parentes, fiquei tomando conta dos seus negócios até que um
seu conterrâneo, que morava na cidade, entregou-me uma carta (uma outra deu ao
tabelião), onde me constituía herdeiro universal. Foi assim que me tornei um
homem de posses.
Continuo sem saber quem são os meus verdadeiros pais e também
continuo com aquela chama acesa no fundo do coração de um dia conhecê-los, pois
para Deus nada é impossível. Dia desses, olhando umas fotografias de Fortunato,
vi uma de sua família na Itália em que estão os pais, o irmão, as duas irmãs e
ele. A mãe Zulmira levou um susto, quando viu o irmão. Achou-o muito parecido
comigo. Mas como é possível, se ele não chegou a vir para o Brasil, pois morreu
nos campos de batalha da I Guerra Mundial, exclamou baixinho a preta.